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sábado

Tá frio o suficiente, meu bem?


Você sempre me acusou de frieza. Lembra?

E eu deixei. Fiz até questão de concordar.

Fiz piadas sobre o muro de gelo ao redor do meu coração, sobre ter um iceberg no peito e ser a própria Elsa do Frozen. E nós dois sabíamos que não era só brincadeira.

E você continuou me acusando de frieza. Mais uma vez eu concordei. Fazer o quê?

Falei sobre as muitas camadas de neve que deveriam ser transpostas até alguém conseguir me alcançar. De como seria uma tarefa trabalhosa e difícil de conseguir. De como pouca gente se empenha e ainda menos gente consegue. Você disse que entendia, mas não era verdade. Era?

E continuou a me acusar de frieza. Eu ainda concordava.

Contei que percebi que o bloco gelado no meu peito era uma forma de proteção. Que sempre foi mais fácil assim. Que eu preferia esconder que por trás desse muro, existia um coração incandescente. E ainda assim você me acusava de frieza. Dessa vez não concordei, mas fiquei confusa.

E foi aí que me dei conta, que você não percebia que naquele momento, eu era só calor. Meu coração estava ali exposto, ao alcance do seu toque, sem nenhum floco de neve. E graças a você, que conseguiu fazer seu caminho pelo meu paredão de gelo. E eu nem vi como isso aconteceu, mas fiquei tão grata por acontecer!

E te contei tudo isso. Palavra por palavra, com meu peito aberto, bem na sua frente. Mas você não percebeu. Não é? Continuou me condenando pela suposta frieza, por mais uma, duas e sabe Deus quantas vezes mais.

Acho que talvez todo aquele calor tenha te assustado e você não soube como reagir. Ou talvez tenha se acomodado àquela visão antiga de quem eu era e nem olhava mais pra ver se algo tinha mudado. Mas como é que você não viu?

E então você mesmo destruiu todo o seu próprio trabalho árduo.

Já não tinha mais calor vindo de você. Não tinha mais combustível para as minhas chamas. E eu tentei, meu bem. Juro que eu tentei. Tentei fazer o que você tinha feito antes. Tentei manter meu coração aceso e transmitir isso à você. Mas de quê isso adiantaria?

E então o gelo encontrou seu caminho de volta, se emaranhando pelas brechas já conhecidas, cercando aquilo que tinha deixado exposto e indefeso, mas que precisava ser guardado e protegido novamente, até mesmo de você. E foi só aí que você percebeu.

Depois de perder, você percebeu como era bom. Vasculhou suas memórias, finalmente vendo o que tinha ignorado durante todo aquele tempo em que te mantive tão confortavelmente aquecido. E foi aí que você sentiu falta.

Espero que esteja com seu casaco, porque a sua frente fria finalmente chegou e eu garanto que ela não é passageira.

Agora tá frio o suficiente, meu bem?

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